Saber calcular o frete pelo piso mínimo ANTT é uma habilidade fundamental para qualquer caminhoneiro autônomo. A tabela da ANTT define o mínimo que você pode cobrar em cada viagem — e conhecer a fórmula exata garante que você nunca aceite um frete abaixo do permitido por lei, nem negocie sem ter os números corretos na mão. Neste guia, explicamos a fórmula completa, apresentamos a tabela de coeficientes 2026 e mostramos três exemplos reais de rotas brasileiras com todo o cálculo detalhado.
O que define o piso ANTT
O piso mínimo de frete da ANTT é definido pela Resolução ANTT 5.867/2019 e atualizado periodicamente conforme a variação do preço do diesel na ANP. Ele é construído sobre dois parâmetros fundamentais:
- Tipo de carga (A a E): define o risco, a especialização do veículo e o custo da operação. Cargas perigosas (D) e especiais (E) têm pisos mais altos; granel vegetal (A) tem o piso mais baixo.
- Configuração de eixos: determina a capacidade de carga e o custo operacional do veículo. Caminhões com mais eixos consomem mais diesel e têm maior custo de manutenção, justificando pisos mais elevados.
Esses dois parâmetros definem um coeficiente por km e uma taxa fixa por viagem. A combinação dos dois gera o piso mínimo para cada operação específica.
"O piso ANTT é calculado com base nos custos reais do setor — diesel, manutenção, salário e depreciação. Quem cobra abaixo dele está subsidiando o contratante com o próprio patrimônio, sem perceber."
— Equipe RealFrete
Fórmula de cálculo passo a passo
A fórmula oficial da ANTT para calcular o piso mínimo é:
Piso Mínimo (R$) = (Coeficiente por km × Distância em km) + Taxa Fixa da Viagem
Cada elemento da fórmula:
- Coeficiente por km (R$/km): valor que multiplica cada quilômetro rodado. Inclui os custos variáveis de diesel, pneus e parte da manutenção preventiva. É indexado ao preço do diesel da ANP.
- Distância em km: distância total da rota em quilômetros, medida pelo percurso rodoviário mais curto praticável. Não inclui deslocamento até o ponto de carga ou retorno ao ponto de origem.
- Taxa fixa da viagem (R$): valor fixo por viagem que cobre custos administrativos, mobilização e parte dos custos fixos do veículo. Não varia com a distância — é sempre o mesmo valor, independente de quanto a viagem mede.
Fórmula de indexação do diesel
A ANTT não atualiza os coeficientes manualmente a cada semana — ela usa uma fórmula matemática que recalcula automaticamente quando o diesel varia acima de 10% do valor de referência:
Coef_atual = Coef_base × (Diesel_atual ÷ Diesel_referência)0,4
O expoente 0,4 reflete que o diesel representa aproximadamente 40% do custo total de operação de um caminhão pesado. Com diesel em R$ 7,00/L em julho de 2026, os coeficientes estão nas faixas apresentadas na tabela a seguir.
Tabela de referência 2026
| Tipo | Carga | 2 eixos | 3 eixos | 4 eixos | 5 eixos | 6+ eixos | Taxa fixa |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| A | Granel sólido/vegetal | R$ 0,4891 | R$ 0,5891 | R$ 0,7169 | R$ 0,8481 | R$ 0,9994 | R$ 87,91 |
| B | Carga geral / frigorificada | R$ 0,5567 | R$ 0,6690 | R$ 0,8124 | R$ 0,9607 | R$ 1,1260 | R$ 96,49 |
| C | Granel líquido | R$ 0,5391 | R$ 0,6491 | R$ 0,7891 | R$ 0,9326 | R$ 1,0934 | R$ 94,90 |
| D | Produtos perigosos | R$ 0,6126 | R$ 0,7367 | R$ 0,8951 | R$ 1,0584 | R$ 1,2396 | R$ 102,70 |
| E | Carga especial/indivisível | R$ 0,7267 | R$ 0,8739 | R$ 1,0617 | R$ 1,2553 | R$ 1,4706 | R$ 140,93 |
Estimativas para julho de 2026 com diesel S-10 a R$ 7,00/L. Use a Calculadora ANTT do RealFrete para valores atualizados.
Exemplos de piso por distância — Carreta 6 eixos, Tipo B (carga geral)
| Distância (km) | Componente variável | Taxa fixa | Piso ANTT Total | Equivalente R$/km total |
|---|---|---|---|---|
| 500 km | R$ 563,00 | R$ 96,49 | R$ 659,49 | R$ 1,319/km |
| 1.000 km | R$ 1.126,00 | R$ 96,49 | R$ 1.222,49 | R$ 1,222/km |
| 1.500 km | R$ 1.689,00 | R$ 96,49 | R$ 1.785,49 | R$ 1,190/km |
| 2.000 km | R$ 2.252,00 | R$ 96,49 | R$ 2.348,49 | R$ 1,174/km |
| 3.000 km | R$ 3.378,00 | R$ 96,49 | R$ 3.474,49 | R$ 1,158/km |
| 4.000 km | R$ 4.504,00 | R$ 96,49 | R$ 4.600,49 | R$ 1,150/km |
Note que o custo por km efetivo diminui com a distância — porque a taxa fixa de R$ 96,49 se dilui sobre mais quilômetros. Em rotas longas, o piso ANTT por km fica mais próximo do coeficiente puro (R$ 1,1260/km). Em rotas curtas, a taxa fixa tem peso relativo maior e o custo total por km efetivo é mais alto.
Não quer calcular manualmente? Use a Calculadora ANTT
Informe distância, tipo de carga e eixos. A Calculadora ANTT do RealFrete aplica a fórmula automaticamente e mostra o piso mínimo atualizado.
Abrir Calculadora ANTT →Componentes: diesel e pedágio
É fundamental entender o que o piso ANTT inclui e o que não inclui:
O que o piso ANTT inclui
- Componente variável diesel: o coeficiente por km embutido já considera o custo do diesel proporcional ao consumo médio do tipo de veículo e a distância percorrida
- Custo variável de pneus e manutenção preventiva (proporcional à quilometragem)
- Remuneração base do motorista (componente de mão de obra)
- Taxa fixa: contribuição para seguros, despesas administrativas e mobilização do veículo
O que o piso ANTT NÃO inclui
- Pedágio: este é o custo que mais surpreende os caminhoneiros. O piso ANTT não considera pedágio. Todo o custo de pedágio deve ser negociado separadamente com o contratante ou adicionado à cotação acima do piso.
- Custos de retorno vazio: se a rota não tem carga de volta, o custo real da operação dobra. O piso ANTT não considera isso.
- Custos de rastreamento, ANTT, seguros específicos de carga
"Caminhoneiros que aceitam o piso ANTT e pagam o pedágio do próprio bolso estão efetivamente trabalhando abaixo do piso. Para rotas com pedágio alto — como a Via Dutra ou a Raposo Tavares — adicione entre R$ 0,15 e R$ 0,25/km ao valor cotado."
— Equipe RealFrete
Para o corredor BR-116 (São Paulo–Curitiba, aproximadamente 410 km), uma carreta de 6 eixos paga cerca de R$ 120 em pedágios no sentido SP→PR (média 2026). Dividindo pela distância: R$ 120 ÷ 410 km = R$ 0,29/km em pedágio. Isso representa 26% a mais sobre o coeficiente ANTT Tipo B para 6 eixos (R$ 1,1260). Portanto, para essa rota, o frete real praticável deveria ser aproximadamente R$ 1,42/km — não R$ 1,13.
Para calcular o custo completo de uma rota com pedágio, use: Como Calcular Frete com Pedágio.
Exemplos reais de cálculo
Exemplo 1 — Cascavel → São Paulo (carga geral, carreta 6 eixos)
- Rota: Cascavel (PR) → São Paulo (SP)
- Distância: 750 km
- Tipo de carga: B (carga geral — alimentos embalados)
- Configuração: 6+ eixos (carreta)
- Coeficiente: R$ 1,1260/km
- Taxa fixa: R$ 96,49
- Cálculo: (1,1260 × 750) + 96,49 = R$ 844,50 + R$ 96,49 = R$ 940,99 (piso ANTT)
- Atenção ao pedágio: a rota usa a BR-376 e Rodovias Estaduais PR. Pedágio estimado: R$ 80. Total praticável: ~R$ 1.020,99
Exemplo 2 — Porto Alegre → Fortaleza (granel vegetal, truck 4 eixos)
- Rota: Porto Alegre (RS) → Fortaleza (CE)
- Distância: 3.450 km
- Tipo de carga: A (granel sólido — soja)
- Configuração: 4 eixos (trucado)
- Coeficiente: R$ 0,7169/km
- Taxa fixa: R$ 87,91
- Cálculo: (0,7169 × 3.450) + 87,91 = R$ 2.473,31 + R$ 87,91 = R$ 2.561,22 (piso ANTT)
- Observação: rota longa com alto consumo de diesel (~1.230 litros a 2,8 km/L) e pedágios na BR-116. Adicione ao menos R$ 300-400 em pedágios ao valor negociado.
Exemplo 3 — São Paulo → Ciudad del Este (carga geral, carreta 6 eixos)
- Rota: São Paulo (SP) → Ciudad del Este (Paraguai)
- Distância: 1.000 km
- Tipo de carga: B (carga geral)
- Configuração: 6+ eixos (carreta)
- Coeficiente: R$ 1,1260/km
- Taxa fixa: R$ 96,49
- Cálculo: (1,1260 × 1.000) + 96,49 = R$ 1.126,00 + R$ 96,49 = R$ 1.222,49 (piso ANTT — trecho brasileiro)
- Importante: o piso ANTT cobre apenas o trecho em território brasileiro. Para a rota completa Brasil-Paraguai, consulte: Calculadora Frete Brasil → Paraguai.
Calcule o frete completo — não só o piso
O Simulador de Frete do RealFrete vai além do piso ANTT: calcula diesel real, pedágio, pneus, seguro e sua margem de lucro — para você tomar a decisão certa.
Simular Agora →Quando o piso não é suficiente
O piso ANTT garante que você não será espoliado — mas não garante lucro. Em diversas situações operacionais, cobrar exatamente o piso significa trabalhar no zero a zero ou até com prejuízo. Saiba quando negociar acima do piso:
- Retorno vazio garantido: se a rota não tem carga de retorno, seu custo por km efetivo dobra — pois você roda de volta com caminhão vazio e pagando diesel. Adicione 30-50% ao piso para compensar.
- Alta demanda, baixa oferta de veículos: safra de soja no Centro-Oeste, final de ano em SP, verão no Nordeste — nesses períodos, o mercado suporta 20-40% acima do piso. Aproveite.
- Cargas com alto risco de roubo: eletrônicos, cigarros, bebidas, medicamentos. O seguro de carga específica pode custar R$ 0,05 a R$ 0,20/km adicional — inclua na cotação.
- Prazo apertado com urgência do cliente: carga parada em porto, entrega just-in-time — clientes que não podem esperar pagam prêmio de urgência de 15-30%.
- Rota com pedágio elevado: como demonstrado nos exemplos acima, pedagios não estão no piso. Calcule-os separadamente e adicione ao valor cobrado.
Para entender quando um frete cobre todos os seus custos (não só o piso ANTT), use nossa ferramenta específica: Como Saber se um Frete Dá Lucro.