A tabela ANTT é a garantia legal de que nenhum caminhoneiro brasileiro precisa aceitar um frete absurdamente barato. Criada após a greve dos caminhoneiros de 2018, ela estabelece valores mínimos obrigatórios para o transporte rodoviário de cargas no Brasil — e cobrar abaixo desse piso é infração, mas quem pode ser multado é o embarcador, não você.
O problema é que a tabela é tecnicamente complexa: tem quatro versões diferentes, varia por tipo de carga, número de eixos e distância. Muitos caminhoneiros sabem que ela existe, mas não sabem usá-la na hora de negociar. Esse artigo muda isso.
Aqui você vai entender como a tabela funciona, o que cada componente significa, ver os valores por tipo de carga, aprender a calcular o mínimo para qualquer rota — e saber o que fazer quando um embarcador oferecer abaixo do piso.
O que é a tabela ANTT e por que ela existe
Em maio de 2018, o Brasil viveu a maior greve de caminhoneiros da história. A principal reivindicação era simples: o preço do diesel subia sem parar, mas o valor dos fretes não acompanhava. Caminhoneiros trabalhavam no prejuízo. O país parou por 10 dias.
Para encerrar a greve, o governo criou a Lei nº 13.703, de 8 de agosto de 2018, que instituiu a Política de Preços Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas. A lei determinou que a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) publicasse e mantivesse uma tabela com os valores mínimos que os embarcadores são obrigados a pagar pelos fretes.
"É vedado ao embarcador oferecer ou contratar frete em valor inferior ao piso mínimo estabelecido pela ANTT. O descumprimento sujeita o infrator a multa de R$ 550,00 por tonelada de carga transportada ou fração, com valor mínimo de R$ 5.500,00 por infração."
A tabela é atualizada automaticamente sempre que o preço médio do diesel sobe ou cai mais de 10% em relação à base de cálculo anterior. Essa vinculação ao combustível garante que os pisos mínimos acompanhem o maior custo variável do transporte rodoviário.
Como funciona o cálculo: CCD e CC
O frete mínimo ANTT não é um valor fixo por km — ele é calculado com uma fórmula simples que combina dois componentes:
- CCD (Custo de Combustível por Distância): valor em R$/km, que varia por tipo de carga e número de eixos do veículo. É multiplicado pela distância da rota.
- CC (Componente Carregado): parcela fixa por viagem, também variável por tipo de carga e eixos.
A fórmula é: Frete Mínimo = (CCD × Distância em km) + CC
Parece simples, e é. O desafio está em saber qual valor de CCD e CC usar — o que depende do tipo de carga transportada, da tabela aplicável (A, B, C ou D) e do número de eixos do seu veículo. A Calculadora ANTT do RealFrete faz todo esse cálculo automaticamente, mas entender a lógica ajuda a negociar com segurança.
As quatro tabelas da ANTT (A, B, C e D)
A ANTT divide os pisos mínimos em quatro tabelas, conforme o tipo de operação:
Para a grande maioria dos fretes — carreta simples com cavalo mecânico, truck ou toco — você usará a Tabela A. As tabelas C e D se aplicam a bitrens, rodotrens e outras configurações de alto desempenho.
"Na dúvida, use a Tabela A. Ela cobre a maioria absoluta das operações de transporte rodoviário de cargas no Brasil."
Consulte o piso mínimo e calcule o frete completo
A Calculadora ANTT e o Simulador do RealFrete funcionam juntos — consulte o mínimo legal e depois veja se o frete completo dá lucro.
Tipos de carga e seus valores mínimos
A tabela ANTT distingue 12 tipos de carga, cada um com seu próprio CCD. Os valores abaixo são para a Tabela A (Lotação Completa) com 5 eixos (carreta padrão), como referência para fretes mais comuns:
| Tipo de Carga | CCD (R$/km) — 5 eixos | Exemplo: 600 km |
|---|---|---|
| Carga geral | R$ 3,29/km | R$ 1.974,00 |
| Granel sólido | R$ 2,95/km | R$ 1.770,00 |
| Granel líquido | R$ 3,44/km | R$ 2.064,00 |
| Frigorificada ou aquecida | R$ 4,29/km | R$ 2.574,00 |
| Conteinerizada | R$ 4,28/km | R$ 2.568,00 |
| Neogranel | R$ 3,09/km | R$ 1.854,00 |
| Carga perigosa — geral | R$ 4,39/km | R$ 2.634,00 |
| Carga perigosa — granel líquido | R$ 4,61/km | R$ 2.766,00 |
| Carga perigosa — frigorificada | R$ 5,51/km | R$ 3.306,00 |
| Carga perigosa — conteinerizada | R$ 5,50/km | R$ 3.300,00 |
| Granel pressurizado | R$ 4,61/km | R$ 2.766,00 |
* Valores de referência baseados na Resolução ANTT nº 5.867/2019 com atualizações. Consulte sempre a tabela vigente em antt.gov.br ou use a Calculadora ANTT do RealFrete para valores atualizados automaticamente.
Perceba as diferenças significativas entre tipos de carga. Uma carga frigorificada tem piso 30% maior que carga geral, e cargas perigosas chegam a 67% a mais. Se você transporta cargas especiais, certifique-se de estar usando o tipo correto na negociação.
Exemplo prático: calculando o mínimo para uma rota
Vamos calcular o frete mínimo ANTT para um frete real: carga geral, carreta de 5 eixos, rota Goiânia (GO) → São Paulo (SP), aproximadamente 900 km, usando a Tabela A.
Isso significa que nessa rota, em nenhuma hipótese o embarcador pode pagar menos de R$ 2.961,00 pelo frete — e o equivalente a R$ 3,29/km. Esse é o seu piso de negociação legal.
Importante: o mínimo ANTT é o piso legal, não o valor ideal. O seu custo real por km com diesel, pneus, manutenção e depreciação pode ser muito maior, especialmente com retorno vazio. O frete mínimo ANTT é o limite inferior; o preço que você deve cobrar é o seu custo real mais a margem de lucro desejada.
O que acontece quando o embarcador paga abaixo do piso
Tecnicamente, a Lei nº 13.703/2018 é clara: o embarcador que paga abaixo do piso mínimo comete infração e está sujeito a multa de R$ 550,00 por tonelada transportada (mínimo de R$ 5.500,00 por viagem). Na prática, a fiscalização ainda é irregular.
O que você pode fazer como caminhoneiro:
- Recusar o frete — você tem esse direito garantido por lei. Nenhuma empresa pode obrigar você a aceitar um frete abaixo do piso da ANTT.
- Negociar com o piso na mão — quando um embarcador faz uma proposta abaixo do mínimo, mostrar os valores da tabela ANTT muda o tom da negociação. Não é você pedindo mais; é a lei determinando o mínimo.
- Registrar a infração — é possível denunciar embarcadores que persistirem em pagar abaixo do piso na Ouvidoria da ANTT (0800 610 5060) ou pelo site da agência.
O piso mínimo da ANTT protege o transporte autônomo. Algumas modalidades específicas, como cooperativas e transportadoras com frota própria em operações diretas, podem ter tratamentos diferentes. Em caso de dúvida, consulte o departamento jurídico da ANTT ou a NTC&Logística.
Como usar a Calculadora ANTT do RealFrete
A Calculadora ANTT do RealFrete automatiza todo esse cálculo. Você informa três dados e recebe o piso mínimo instantaneamente:
- Tipo de carga — selecione entre os 12 tipos disponíveis (carga geral, granel sólido, frigorificada, etc.)
- Tabela ANTT — escolha entre A, B, C ou D conforme o tipo de operação
- Número de eixos — de 2 eixos (toco) a 9 eixos (bitrem)
- Distância em km — informe a distância real da rota
A calculadora exibe o frete mínimo ANTT em reais e em R$/km, e ainda permite que você informe o valor proposto pelo embarcador para ver se está acima ou abaixo do piso legal. Se quiser calcular também se o frete dá lucro depois de descontar todos os seus custos, o Simulador de Frete do RealFrete faz esse cálculo completo.
Consulte o mínimo ANTT e calcule o seu frete agora
Verifique se o próximo frete está acima do piso da ANTT — e depois confirme se ele realmente dá lucro depois de cobrir todos os seus custos.